E... é esta a história da Francisca.

Ela chegou nervosa porque estava e está aterrorizada com a cirurgia que tem de fazer à orofaringe e tecidos circundantes atendendo ao diagnóstico de apneia do sono. Diz ela que tem muito, mas muito medo da anestesia geral, que ficou muito tranquila por saber que não haverá nada a cortar com bisturi, mas sim que será tudo feito com um laser e diz ela que não quis saber mais nada, antes que o alívio desaparecesse. Diz-me que é totalmente dependente da fluoxetina e do alprazolam e que nos dias melhores passa apenas uns pózinhos pelo nariz e fica logo como nova! Mas porque me conta ela estes aspectos da sua vida privada? Porque me dou a quem se senta à minha frente e pergunto tudo o que acho que relevante para a pessoa que está à minha frente se sinta pessoa por inteiro, à vontade e tranquila.
Diz-me ela que esteve 5 anos sem dormir aquando do nascimento da filha mais nova. Foram 5 anos seguidos, em que a filha dormia em média 4h por noite... até que chegou ao dia em que desligou. Desligou, caiu e quando acordou, era ela, mas já não estava lá! De psiquiatra em psiquiatra, chegou aos 28 comprimidos por dia, chegou a ver os dias  a passar como quem está sentado à janela do comboio e vê a paisagem a ficar para trás! Diz-me ela que só precisava de umas noites para ela, de dormir, de descansar, de ter o tempo que lhe foi roubado para voltar a ser quem sempre foi. E percebo mais tarde que me fala da filha mais nova da barriga, mas a do meio do coração. Numa voz embargada, diz-me que os psiquiatras são assassinos de almas, que nos roubam a identidade, em troca de uma etiqueta de supermercado e que os fazem em torno de si mesmos. A sorrir ouço-a a agradecer a Deus por ter encontrado o Dr João Cabral de Melo Neto que a ouve, que a apoia, que lhe tirou a medicação porque diz no seu específico caso, a força vem de dentro e ela tem mais que se a maioria das pessoas, eu perdi-me ali, fico no nome que julgo ser de um poeta brasileiro e na envolvência do poema que se não me falha o nome é "A Educação pela Pedra". De braço dado entrou com ela a Francisca, tem 4 anos e é um doce de menina, a sua filha mais nova de coração. 
Honestamente, sempre achei que mãe é quem cria e não quem pariu. E mais sincera que isto não o consigo ser. Conta-me em jeito de segredo já no fim do nosso tempo, enquanto a Francisca brinca na sala ao lado. 
Ela: "É linda a minha Francisca, não é?!"
Eu: "Muito mesmo! É parecida consigo, não é?!"
Ela: "Toda a gente me diz isso. E eu acho engraçado, porque ela não é minha filha, mas das minhas três filhas, é a que mais saiu a mim..."
Eu: (silêncio)
Ela: "Sabe, só tive 30 minutos para decidir. A minha ginecologista telefonou-me numa tarde a dizer que precisava de me ver no Hospital que era um assunto urgente. Só tive meia hora para decidir e decidi sozinha. Meia hora! A minha cunhada engravidou e guardou segredo de tudo e de todos. Eu mal a via, para mim e para todos foi uma total surpresa. Engravidou e ia dar a bebé para a adopção, a Dra Helena disse-me que a família tem direito do opção e fez-me a mim decidir. Eu senti o peso da decisão, que se eclipsou no momento em que lhe peguei. Ela deixou-me assistir ao parto e até fui eu que fiz de pai, porque fui a primeira pessoa a pegar ao colo à Francisca. Juro-lhe que ela me sorriu nesse instante e eu fiquei feliz por ela ser minha. Eu sozinha escolhi o nome Francisca."
Eu: "Tem um coração gigante..."
Ela: "Não, nada disso... Esta é a história da Francisca e ela sim é gigante. Que já percebe mais ou menos as coisinhas e que me chama de titi e de mamã."
Francisca: "Vamos embora mamã?"
Ela: "Vamos sim minha jóia..."

Houve alguém além do psiquiatra, que viu mais com o coração do que com os olhos. E, essa pessoa não fui eu, eu limitei-me a sentir...

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